Há mais ou menos um mês fui convidada para dar uma entrevista sobre lutos e perdas em um programa de TV em Ribeirão Preto. Confesso que tenho minhas resistências com este tipo de convite, já que normalmente o tempo é curto e as questões discutidas não podem ser aprofundadas, passando a idéia ao telespectador de que estamos conversando sobre coisas simples.

E, definitivamente, falar sobre perdas e lutos não é algo simples!

Por isso decidi aprofundar minhas idéias expostas na entrevista neste espaço. Entretanto, quem tiver interesse em assistir a esta entrevista, poderá acessá-la aqui.

Em primeiro lugar…

É  importante dizer que nós não escolhemos viver perdas. Elas acontecem o tempo todo em nossa vida sem que possamos escolher. Entretanto, apesar do senso comum ver nas perdas somente o aspecto negativo (da falta), sem as perdas não há desenvolvimento humano.

Dito de outro modo: para que possamos nos desenvolver, expandir nossa mente e constituir nosso psiquismo, nos tornando seres únicos e completos (em nossa incompletude), precisamos inevitavelmente vivenciar perdas!

Tudo começa ainda na barriga de nossa mãe em que não temos  nenhuma idéia da existência de um mundo externo à nós mesmos.

Vivemos num estado de completa dependência do outro, embora não saibamos que este outro existe.

Quando nascemos, encaramos nossa primeira perda: a perda do “paraíso perdido”, que é o estado de completa fusão com o outro, no caso, a nossa mãe. Freud nos diz que este é o primeiro grande trauma da nossa vida: o trauma do nascimento.

Entrentanto…

O fato de nascermos fisicamente não significa, em absoluto, que nascemos mental e psiquicamente. Este nascimento é mais demorado e depende, fundamentalmente, das condições que o ambiente irá nos proporcionar, particularmente, através dos cuidados dispendidos  pela nossa mãe ou cuidador.

Assim, um bebê recém-nascido vive num estado de completa onipotência e fusão mental com sua mãe. Esta separação, ou seja, a percepção pelo bebê de que há um outro fora de si, só irá ocorrer aos poucos.

Por isso é tão importante que a mãe ofereça ao bebê, neste início de vida, um ambiente simples, constante e tranquilo.

Para que o bebê não se veja invadido precocemente por um ambiente externo que ele ainda não está preparado para conhecer.

Resumindo…

Falei sobre tudo isso pra contar a vocês que está é nossa primeira perda vivenciada: a perda da fusão eu-outro. Neste momento estão lançadas  as bases para o início do processo de individuação, ou seja, o processo de nos tornarmos um, conectados, porém, separados do outro.

Vejam que se não vivenciamos esta perda, dolorosa, mas benéfica, não poderemos nos lançar rumo ao próximo passo do desenvolvimento e ficaremos eternamente enredados e dependentes patologicamente do outro, sentindo que sem ele eu não existo.

Entretanto, este bebê só poderá tolerar vivenciar esta primeira perda se houve um bom início de vida, oferecido através de um contexto de cuidado estável e amoroso. Se tudo correu bem neste início, o bebê poderá vivenciar o que a psicanalista Melanie Klein chama de posição depressiva.

Esta posição, ao contrário da visão de depressão do senso comum que se tem, é fundamental para a saúde mental do sujeito. Nesta posição depressiva, o bebê, já reconhecendo a mãe como um ser separado dele, irá experienciar as bases da preocupação em relação ao outro. Ou seja, sentindo ter perdido a mãe por causa de seus impulsos agressivos, o bebê irá reparar sua perda.

Vejam que novamente a perda, neste caso, leva ao desenvolvimento do sentimento de gratidão e de preocupação com o outro.

Tentei dar um resumo deste início da vida pra dizer a vocês que este processo irá se repetir ao longo de toda a vida, toda vez que nós experimentarmos algum tipo de perda: a perda do nosso corpo jovem (no processo de amadurecimento e envelhecimento), a perda de alguém muito querido ou o rompimento de uma relação amorosa.

Ou seja, o que irá definir o modo como lidamos com estas perdas futuras será o modo como se deu o nosso início de vida e como vivenciamos este processo que eu descrevi acima.

Por problemas decorrentes deste início da vida é que muitas pessoas têm extrema dificuldade de lidar com perdas: ficam aprisionadas no passado, sentem-se abandonadas pela pessoa que se foi (por morte ou porque o amor acabou), pela perda do trabalho ou pelo crescimento dos filhos.

O modo patológico de lidar com estas perdas (necessárias e inevitáveis) traz muito sofrimento e angústia pra própria pessoa e pra aqueles que convivem com ela.

Ressalto que este tipo de sofrimento deve ser tratado através de psicoterapia. Neste processo, a pessoa irá vivenciar junto de seu psicólogo uma espécie de revivência do passado.

Este não é um processo fácil e rápido, já que se tratam de experiências muito precoces e marcantes na vida desta pessoa, num momento em que as possibilidades de enfrentamento da situação eram quase nulas.

Por outro lado, creio ser fundamental para que a pessoa possa se construir em bases mais sólidas e firmes, sem se sentir despedaçada e fragmentada cada vez que experimentar uma perda.

Abraços

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