É muito comum encontrarmos entre as pessoas milhares de fantasias e mitos sobre o que se passa numa sala de atendimento psicológico. Em grande parte, isso ocorre porque muitas destas pessoas que constróem estas fantasias nunca vivenciaram realmente esta situação.

No máximo, ouviram o comentário de algum colega que foi buscar ajuda, comentário este recheado pelas próprias fantasias e projeções pessoais.

Penso que um outro motivo que gere tanta resistência em relação a se buscar ajuda psicológica séria e ética diante de qualquer tipo de sofrimento mental tenha a ver com a própria essência deste tipo de sofrimento e as consequência que ele gera.

Freud nos ensinou de forma magistral que a mente possui defesas naturais contra a dor mental e a angústia. Assim, diante de qualquer “trauma” que a mente venha a sofrer, gerado por estímulos internos ou externos, a mente automaticamente lança mão da repressão de modo a proteger nosso sistema consciente-perceptivo destas intrusões emocionais.

Qualquer força contrária à esta repressão, ou seja, qualquer movimento no sentido de fazer estas lembranças dolorosas reprimidas virem à tona novamente encontraria uma resistência tão intensa e potente quanto fora a repressão.

E é com isso que nós psicólogos lidamos quotidianamente nos nossos consultórios: pessoas em estado de sofrimento mental que nos procuram buscando alívio, mas,  que quando se deparam com o fato de que terão que rememorar coisas sofridas e difícieis, através da fala,  ou seja, reaviviar estas lembranças reprimidas, muitas vezes não suportam este processo e vão embora.

Muitas delas, por falta de um aparelho de contenção destas dores mentais, não conseguem nem ao menos chegar perto de tais sentimentos e precisam que nós terapeutas funcionemos por um bom tempo como aparelhos digestivos que irão transformar, aos poucos, estes sentimentos de modo a serem melhor tolerados dentro da mente.

E é exatamente por isso que o processo psicoterapêutico é longo e não é possível permanecer nele sem alguma dose de dor. Por outro lado, na medida em que vamos nos fortalecendo, o sentimento de estarmos mais inteiros e integrados com os nossos próprios sentimentos, ou, como diz Meltzer, mais responsáveis pela nossa própria mente, podemos nos sentir realmente vivos.

E é muito bonito e gratificante fazer parte deste processo!

Sem lidarmos com isso, passaremos o nosso tempo fugindo de nós mesmos através dos inúmeros artifícios que a nossa sociedade nos oferece: compras, consumo, tudo em excesso e, apesar de tudo, continuamos com um imenso sentimento de vazio e de falta, que não passa nunca.

Pensem nisso!

Abraços

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