A Psicanálise é uma teoria da personalidade, um método de tratamento e um instrumento de investigação científica, conforme descreve Freud sobre seus próprios achados (Roudinesco e Plon, 1944/1998).
Compreende o homem como um ser global e dotado de um inconsciente que atua como uma segunda consciência, completamente alheia à consciência da vida desperta.
Assim, a Psicanálise chama a atenção para o fato de que o homem conhece muito pouco sobre o seu interior, necessitando da ajuda de outra mente (no caso, a do analista) para acessar seu mundo inconsciente.
O objetivo da Psicanálise, nesse sentido, é o de propiciar uma ampliação da mente, tornando pensáveis e nomeáveis sentimentos e sensações que desconhecemos em nós. Este processo transformador, obviamente, traz alguma dor porque nos desaloja de nossas conhecidas teorias sobre nós e sobre os outros. Assim, conforme define Calligaris:
"Uma psicoterapia é uma experiência que transforma; pode-se sair dela sem o sofrimento do qual a gente se queixava inicialmente, mas ao custo de uma mudança. Na saída, não somos os mesmos sem dor; somos outros, diferentes". (p.73)
Sua proposta é corajosa e audaciosa e, por isso mesmo, requer alguma coragem daqueles que se beneficiam dela: deitar-se no divã e remexer em si mesmo, mergulhar em searas desconhecidas para nossa mente consciente, encontrar-se com os nossos demônios internos.
Mas, nunca este convite de mergulho em águas profundas foi tão necessário, sério e importante como hoje, num tempo de relações líquidas (Bauman, 2003), de mentes destituídas de enraizamento de suas origens, de tempo e de espaço e de angústias inomináveis.
BAUMAN, Z. Amor Líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
CALLIGARIS, Contardo. Cartas ao um jovem terapeuta: reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos. Rio de Janeiro: Alegro, 2004.
ETCHEGOYEN, R. H. Fundamentos da Técnica Psicanalítica. Porto Alegre: Artmed, 2004.
FREUD, S. (1912). Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise. In.:FREUD, S. O Caso Schereber, artigos sobre técnica e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1911-1913.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. 1944. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.